local-motors-strati-003-1500x1000Você precisa de uma peça para um automóvel fora de linha. Vai à loja, paga para baixar um arquivo no computador e, imediatamente, a impressora começa a fazer o componente. Tal visão do futuro está bem mais próxima do que se imagina: o Salão de Detroit encerrado no último domingo exibiu dois carros com carroceria e chassi produzidos por impressoras 3D. Com jeito meio acanhado e esquisitinho, os dois antecipam uma transformação com a magnitude da Revolução Industrial.
Um dos modelos expostos em Detroit foi o Strati, da Local Motors. Fundada em 2007, a empresa é especializada em projetos malucos que vão desde um velocípede elétrico para adultos brincarem de drift até o Rally Fighter, uma mistura de muscle car com fora-de-estrada.
No visual, o Strati parece um buggy feito com peças de Lego. Nota-se na carroceria de dois lugares o empenho em evidenciar a sobreposição das camadas de plástico ABS e fibra de carbono (um dos métodos da impressão tridimensional). O desenho é do italiano Michele Anoé — o nome Strati, aliás, significa “camadas” no idioma de Dante.

A parte mecânica, ao menos por enquanto, não pode ser impressa: motor elétrico, baterias e suspensão são fornecidos pela Renault (a roda de três furos, aliás, têm um quê de Gordini). Com máxima de 40km/h, o carrinho pode circular por condomínios e outras áreas fechadas. Contudo, Jay Rogers, o presidente da Local Motors, já projeta versões aptas às ruas e estradas.

O primeiro Strati foi impresso em setembro durante um evento de tecnologia em Chicago. No Salão de Detroit, o segundo exemplar foi feito à vista do público. Cada carroceria demora 44 horas para ficar pronta (a ideia é diminuir esse tempo para 12 horas). Os preços são delirantes: entre US$ 25 mil e US$ 35 mil, dependendo do acabamento.

O aspecto pioneiro dessa história é que, usando impressoras tridimensionais, a Local Motors pretende ter microfábricas no Arizona, em Nevada, no Tennessee e em Maryland.

“Microfábricas tiram partido de ferramentas de baixo custo e de co-criação. Com isso, é possível pôr produtos no mercado em tempos menores e utilizando menos capital”, resume um comunicado da Local Motors.

O outro carro impresso em 3D exposto no Salão de Detroit era uma réplica encolhida do Shelby Cobra. Foi feito como atividade científica do Laboratório Nacional de Oak Ridge (ORNL), que é gerenciado pelo Departamento de Energia dos EUA. Com carroceria de fibra de carbono lisinha e pintada de azul metálico, o modelo foi examinado de perto há duas semanas pelo presidente Barack Obama. O ORNL também teve grande participação no projeto da Local Motors.

Adeus a frete, mão de obra e estoque

Imagine os reflexos de tamanha facilidade de manufatura. Para começar, isso muda o foco da produção mundial — quem precisará ter fábricas de peças na China ou no Vietnã para exportar para a Europa ou para as Américas?

Tem mais: quais serão os efeitos desses cortes no frete e na redução de mão de obra? E, claro, mudam completamente os conceitos de estoque. Sabe aquela peça difícil de encontrar? Bastará conseguir seu arquivo 3D, uma impressora, material e pronto!

Em vez de tinta, impressora 3D usa plástico

Foi em 1984 que o engenheiro americano Chuck Hull desenvolveu um processo chamado estereolitografia. Sua ideia foi imprimir objetos tridimensionais usando finas camadas de um polímero líquido. Durante o processo, o material era solidificado por raios ultravioleta.

Em vez de tinta, a impressora tridimensional vai depositando as camadas de plástico que se sobrepõem mecanicamente. Quanto mais finas são essas camadas, melhor é o processo. Depois, pode-se dar acabamento, lixar e pintar.

O objetivo inicial do invento era diminuir o tempo de produção de protótipos para a indústria (substituindo a argila). Pode-se, por exemplo, imprimir em plástico as formas exatas de um novo ferro elétrico, antes de partir para a produção do ferro de verdade.

Um problema das peças feitas por meio desse sistema é a resistência inferior à dos produtos finais (um protótipo que sai da impressora 3D é mais frágil do que o componente fabricado em série). Mas as máquinas estão mais versáteis, podendo usar materiais plásticos diversos (ABS, polipropileno, nylon), metais, fibra de carbono e até chocolate.

Novas gamas de materiais resistentes estão chegando — e aí, sim, as impressoras 3D poderão ser usadas como pequenas e versáteis fábricas.

— Não tenho dúvida de que isso vai acontecer, só não sei dizer quando — diz Luiz Fernando Dompieri, diretor geral da divisão sul-americana da 3D Systems.

Fato é que esses tempos da produção por demanda não estão muito distantes. A Airbus e a Boeing já imprimem peças de metal e plástico para aviões. A Nasa mandará impressoras 3D ao espaço.

Por enquanto, o contato do grande público com peças feitas em impressoras 3D é restrito a coisas como bonecos personalizados vendidos em balcões de shopping centers. Ainda é muito pouco para uma solução tão brilhante.